ALAN BEZERRA TORRES

Alan Bezerra Torres

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- ALAN BEZERRA TORRES

Nome: Alan Bezerra Torres

Biografia:
Alan Bezerra Torres nasceu em 1986 em Fortaleza. É graduado em Letras pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e possui o título de Mestre em Literatura Comparada pela mesma Instituição. Doutorou-se em Literatura Comparada pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) em 2018 e, desde 2014, é Professor Efetivo do IFCE. Já lançou alguns livros, dentre eles o Manoel de Barros: a poética da infância e dos espaços, resultado de seu trabalho dissertativo. Atualmente, dedica-se à poesia e tem figurado em algumas antologias, como a organizada pelo Instituto Horácio Dídimo, lançada na bienal de 2019: 100 sonetos de 100 poetas.

Poesias

Diálogo interior

 

Sou seu Eu-Agora,

quero indagar:

como foi que pôde

errar tanto outrora?

 

Sou seu Eu-Outrora,

preciso falar.

Como foi que pude?

Era o ser da hora.

 

Medir consequência

você não pensou?

Fazer o que fez

com tanta frequência?!

 

Medir consequência?

Mas você eu sou.

Fazer o que fiz?

Quanta prepotência!

 

Eu sou o que no mundo andou vencido,

procurando fugir do seu gemido,

do seu gozo blasfemo. Sou a dor

do hoje…  e o pior:  sou fiador!

 

Eu pago as despesas, presto conta.

Cá dentro um amargor que me entristece:

são noites claras d’alma que adoece

acordada em prece que amedronta.

 

Mexo-me nesta areia movediça,

afundo em mim, busco ar, inspiro.

De profundis clamavi  – eu blatero!

 

Limpo-me de você, haja justiça!

Apodrecendo, tétrico vampiro,

quem sabe, talvez,  dance um bolero.

 

Eu fui o que no mundo andou gozando,

aproveitando a flor da mocidade.

Cria que tempo meu era o quando

E sabia viver promiscuidade.

 

Corrigir? Expiar? Indiferente!

Fazer ou desfazer? É impossível!

O que passou, passou. Irreversível!

Não há remo que vença a torrente.

 

Lamento por você, enfim, coitado.

Velho, maduro, julga-se mais sábio,

crendo, talvez, que haja tempo hábil.

 

Remar, remar, remar e extenuado

reconhecer a falha, ver-se trágico,

num espelho, com câncer hemorrágico.

 

A terceira pessoa do outro somos,

Tanto é que usamos o você.

Isso diz tanto, há muito já fomos

provavelmente o mesmo pobre ser.

 

Mentira, traição, misoginia,

gula, intolerância, preconceito.

Hoje, soam ruins – cacofonia.

Outrora, compuseram o sujeito.

 

Cegueira de um perfeito extasiado.

De si, um narcisista enamorado.

Tamanha arrogância! Visão turva!

 

E se tornar-me um velho amargurado

que seja, pois, por causa do passado,

mas busco do caminho outra curva!

Cores da tarde e da noite.

Para Sarah Borges

Amarelo sob um branco espumoso
Nos dois vidros transparentes sobre a branca mesa.
Antes, porém, podia-se ver o verde mar e o branco espumoso através das [transparências…
O fim de tarde azulado e nublado não dava ao dourado sol os tons impressionistas
E uma rósea boca abria e fechava falando e sorvendo amarelo por entre brancos dentes.
Dos dois lados da cabeça pendiam vermelhos que balançavam
E confundiam-se com o alaranjado da falésia ao fundo.
O negro cabelo era contraste para a branca e tatuada pele:
Uma aquarela de mensagens: um cantor de rock, um gatinho, uma frase…
O vermelho cobria minimamente o corpo convidativo.
Os olhos dela viam através dos escuros óculos e deixavam os meus castanhamente [tímidos.

A noite dissipou minha percepção externa das coisas coloridas.
Divisei o corpo se mover no mar de água incrivelmente quente.
Sorrimos e ficamos molhados sob o pálio infinito costurado pelos astros cintilantes.
De volta, as luzes já brilhavam nas ruas e seguimos menos expansivos no auto.
O que não tateávamos? Que tom ou teor?
Que cores por dentro de mim? Que cores por dentro dela?

Re (é)

Relendo…
Refazendo…
Repensando…
Renascendo…
Reavaliando…
Repaginando…
Reorganizando…

Re para não olhar o retrovisor?
Re para não dar marcha à ré?
Re para não fazer de minha vida uma ré.
Re para a segunda nota, para um doce acorde – ré…