ANA ARGENTINA

Ana Argentina

Nome: Ana Argentina 

Biografia:

Filha de Celeste e do Inácio. Irmã de quatro supermulheres e do divertido e bom coração, Rominho. Tia coruja de oito seres fantásticos. Cuidadora do Marley, o mais belo dos vira-latas. Canceriana com ascendente em Áries, fato esse que a faz levantar as mãos pro céu e agradecer. Quando escreve, dentro dela, o mundo toma outro rumo. Sonha com o dia em que todas as riquezas do mundo sejam divididas de forma igual para todos os habitantes do planeta. E por isso mesmo sabe que, nesse momento, a chamam de louca. E é. É muito visceral para um mundo superficial. Escreve poesias, contos, crônicas. Tem textos em quatro lindas antologias publicadas em 2019 (Paginário, O olho de Lilith, Relicário e Manifesto Balburdia Poética – 80 tiros). É tímida, mas ninguém acredita. Gosta de beijar mordendo. Tem TPM de alta periculosidade. Não sabe mais o que escrev…

 

Poesias

Meu corpo é um rio

 

Eu?

Eu sou qualquer coisa entre a eira e a beira de mim mesma.

Vezes cheia, arredia.

Vezes uma seca, me esvazia.

Dentro de mim: vasos, veias, órgãos, tecidos, membranas…

Vezes me dilato, vezes me oprimo.

Meu corpo mesmo vai indo, muitas vezes à revelia do meu querer.

Tem dias que encurto caminhos, noutros quero é a lonjura de coisas pequenas.

Eu que nada tenho, vou nutrindo minhas fontes de tudo aquilo que, em mim, chega.

Mas é necessário todo mês sangrar, para renovar a força do meu curso.

Quando sangro, choro, desejo, enlouqueço.

Quando estanco, quase serenizo.

Meu corpo é um rio!

Em tempos de cheia arrasto o que vejo pela frente: gentes, bichos, troncos de árvores frágeis.

É que ninguém pode com muita água, nem todo asfalto e secura do mundo, consegue conter suas correntezas.

Meu corpo é um rio de águas profundas.

Encantados passeiam dentro de mim, brincam de escorregar da raiz dos meus cabelos aos dedos dos pés.

Se não fossem as águas, em meus pelos não dormiam arrepios.

Meu corpo, de tanto ser rio, corre para ser um dia, mar.

Meu corpo, terceira margem, lugar de solidão, do vazio do mundo, de perguntas sem respostas.

Meu corpo, meu próprio abandono.

Lugar onde apago, mas também acendo minha luz.

Meu corpo, morada do espírito, digital de meus ancestrais.

Nele tocam tambores, as fêmeas todas que, antes de mim, nasceram.

Rodam saias, gira(m) mundos daqui, e de lá.

Meu corpo/rio, travessia de temporais!

Castelo dos peixes, pouso de pássaros, esconderijos de serpentes.

Meu corpo é um rio, um rio sagrado e feminino

E, por ser rio, nunca/jamais, corre pra trás.

Às Senhoras! 

                                                                                                                    

De um útero ancestral brotam saberes

Nos crespos cabelos, escorregam as línguas de lá e de cá.

Pelas águas e ventos oceânicos, nos chegam as Senhoras.

Deusas negras de saias rodadas com tambores que batem dentro dos seios fartos

e alimentam mundos.

Com coração nas mãos sopram em nós, reles mortais, suas memórias.

Ciência maior não há!

Nas saias estampadas e rodadas, moram os segredos.

Mulheres rios, por onde tudo nasce e corre, fontes de vida.

Cuidadoras dos mundos

Mulheres chão

Mulheres que não vivem em vão.

Deusas

Feiticeiras

Faceiras

Zeladoras dos espíritos

Mantedoras dos fios invisíveis

que ligam cordões umbilicais simbólicos/reais dos que já foram,

dos que virão e dos que aqui, estão.

Mulheres células, átomos, grãos,

barro, água, sal

frio, sol, combustão

vulcão em erupção

temperanças, mansidão

mulheres árvores e néctar

céu da boca onde moram estrelas.

Olhos d´água do mar, tantos filhos pra criar!

Banho de folhas e muito asè pra nos salvar!

Benção minhas senhoras!

Rainhas cheias de imensidão, permitam o meu caminhar.

Que homens perversos, não me impeçam de sonhar.

Saravá!

Axé!

Oh Jurema!

Motumbá!!

À casa

 

Junto com a matriarca, a casa também envelheceu.

Arrebentou veias, dilatou o útero para parir os filhos e os não filhos que por ela andavam e, ainda, andam.

Ruidosa, sempre pareceu sangrar.

Hoje, mais que nunca, continua a jorrar seu leite quente por debaixo da terra molhada.

É uma casa rio, uma casa lagoa.

Nela, crianças lambem, com a sola dos pés, as letras postas nos livros espalhados em suas brechas.

Espírito que mora em mim, criado dentro dessa casa e não dentro de nenhuma outra, sempre foi um inconformado, um deprimido, mas agradecido.

Essa casa me construiu, desconstruiu, demoliu. Me reergueu tantas vezes!

Nesse chão que abriga uma cacimba e um poço profundo, vivenciamos nossas lutas, e talvez, pela força das águas que nos cerca, derramamos tanto choro.

É que pobreza demais costuma querer botar fraqueza na alma da gente. Ou força!

A casa, já nem suporta. Deu pra cair parede, descascar o ferro.

Parece que se auto engole feito bicho sozinho, desvairado de fome.

É uma casa/mãe!

Que parte dessa grandeza, me cabe?

Um rio passou bem no meio de nossa vida.

Nos viu crescer e viu as portas e janelas que não existem mais.

A casa, a bendita, é nossa aorta.

Nós, talvez, as pessoas mais tortas a manchar sua memória de casa/gente, casa/espírito.

A casa, é tudo o que tenho, tudo o que sou.

E eu sou essa lama a escorrer mole e fria por debaixo do tapete imaginário de sua não suntuosa porta.

A casa é meu pai

A casa é minha mãe

Meu pai nosso, meu amém.

Meu axé!! Assim seja! Deus bendiga, segure suas paredes!

Dê limite à ferrugem de suas ferragens e a nossa ingratidão.

À casa, abrigo/umbigo, toda a minha devoção!

Mistérios Gozosos

Quando me atravessas com boca, língua, pau, mãos

Quando esse escuro dos teus olhos, mergulha nos meus.

Quando teu cheiro me invade a buceta

Quando eu, quase morta de tanto gozo, digo que te amo e te quero

Quando tu, em mim não acredita, mas ainda assim eu imploro

: me goza meu amor, me goza!!!

De todas as bocas, a tua.

Somente a tua, a invadir alma, corpo e juízo.

Sem piedade, tu me fodes, eu te fodo!

E eu gosto desse tanto de maldade.

A gente rir do corpo que treme e, quase não para.

Até parece que, no mundo, ninguém goza como a gente

Até parece…

Enquanto isso meu amor, gozemos!

Oremos!

os mistérios (são) gozosos, nessa nossa nada santa, devoção.

O funil

 

Dia desses fui tragada pelo buraco de um funil. Me deixei cair.

Distraída que estava, fui caindo.

Anos se passaram e, ainda se passam, e cada vez mais sinto meu corpo todo se oprimindo pra eu sair inteira do estreito.

Talvez em algum momento da agoniante travessia eu mesma já não tenha força para tentar a saída e, por lá mesmo, fique esmagada e soterrada em mim mesma.

As vezes sinto o cheiro leve de um vento que passa distante.

Pego carona, me distraio da dor.

Noutros instantes só desejo a morte rápida, o aperto letal.

Tem dias que lembro que caí com as mãos para cima.

E delas sai meu grito de socorro.

Me valho das deusas…

Penso na palavra misericórdia, peço que não me deixem só.

Nas noites frias imagino que tenho asas e faço voos rasos e ligeiros, mas logo o corpo quebrado em pequenos pedaços, me lembra que preciso voltar pra uma dor que não pedi.

A medida que o temo passa não sei se o funil se estreita ainda mais, ou sou eu que me enlargueço.

Certo é que há dias piores que outros e nesses as deusas tentam um caminho de saída, uma rota de fuga.

Eu mesmo é que não as escuto.

Saber escutar, aprender a reconhecer os sinais que elas emanam leva tempo, treino e fé.

Na agonia do que dói, que já é tanto, eu me faço de cega, de surda, de muda.

Viver e morrer é como passar na parte fina e longa de um funil.

Depois que passa, já não dói.

O problema é quando você entala e, já nem vive e nem morre.