ANA LÍDIA

Ana Lídia

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- ANA LÍDIA

Nome: Ana Lídia 

Biografia:

Lídia Rodrigues, sapatão, negra, cearense, educadora social, ativista feminista, artista plástica e escritora. 32 anos em que água de sal esculpe sua existência, de suor, gozo e lágrimas, rios que escorrem pro (a)mar em Fortaleza. Compõe o grupo ativista Tambores de Safo, onde performa algumas de suas poesias. Teve dois poemas publicados na antologia poética Elas Escrevem da Editora Andross, e, publicou o livro ECDISE pela padê editora. Palavras são matéria prima para corporificar sentidos, histórias, acasos, fatos e transbordamentos. Palavra é ponte, meio para partilhar com as suas aquilo que se cultiva dentro

Poesias

SANKOFA

Nas entranhas da memória, Remexe um fato insistente Sei que, se meu corpo chora, Ou, a minha mente, mente Preciso ficar no agora E ter fé no pra frente Pra semear outra história E o futuro gerar semente!
Chorei jorros pra dentro. Obriguei a rotina a parar. Havia tanto sofrimento, E, coisas fora de lugar, Que o meu maior intento Era não deixar-me matar
Deixei escoar a dor Banhei ao sol, senti o vento, Um tempinho, e vi uma flor, Brotar rompendo o cimento: Uma crosta que formou A substância do sofrimento
A flor chamei esperança Passado, chamei a parte quebrada Esgotei e canalizei a lembrança Que no tempo gerou terra adubada E o futuro sorriu: criança Pois a vida não se rende por nada!

Saboeira XG

Aquele conto de fadas Todo feito de padrão simulacro perfeito de uma prisão Não tem na coloração Nem no tamanho xg Capaz de me caber Preta-gorda-sapatão
Se quiser até soletro A palavra solidão Mas ela não é a síntese Dessa inadequação Que não requer salvação E se quer mesmo saber Desse modelo de poder Faz tempos que abri mão
Poder e amor eu tenho Livre da escravidão Da paródia da dependência Onde qualquer emoção Se vive em meio à tensão Em vez disso existo e ajo sem medo! E posso contar um segredo? É isso fazer sabão

DANDARA

Estou solta do lado de fora, Ninguém vai me prender, E o que eu digo a você é só liberdade…
Não existe mais medo em mim, Do que estar por vir, E o meu destino nem tá na metade…
Já estou é no topo, e, sem culpa Eu sigo caminhando Porquê topo é passagem…
Pois é de altos e baixos a vida E eu encaro a parada E sigo viagem
E não me falem que é tempo perdido O tempo anda comigo Estamos de brodagem..
E também posso decidir parar, Parir ou plantar, Me chamo desejo, sobrenome coragem

MEMÓRIA EM PRETO

A história se repete, isso é um fato, Que não podemos aceitar jamais Se antes haviam capitães do mato Hoje existem os policiais
Se ontem nos navios negreiros Nos levavam, após nos arrancarem Do nosso chão, Hoje é em nome da lei Que nos arrastam dentro ou fora do camburão
Somos centenas, milhares de Amarildos Somos diversas, incontáveis as Claudias Que fomos pela PM desaparecidos Ou tivemos os corpos arrastados pelas praças
Se nos retrataram como animais Na história escrita e formal Hoje quando aparecemos nos jornais Quase sempre é na seção policial.
Mas iremos sim transformar a história, Para um dia, oxalá, poder gozar de direitos Não daremos um descanso pra memória, Pintaremos a história de preto!

PASARINHANDO

Sentimento avesso a essa Desembocadura de era Enquanto eu leio jornais Os dias pesam refletidos No papel em sangue embebido E eu nunca vejo a primavera
Quando avoante de palavras, Sentimentos nascem em mim E do peito saltam versos Que escapolem pela goela Ganham ventos em voos Sem objetividade fajuta Sem crime dito confesso Sem verdade universal, Sem prescrição, bula ou remédio Só á terapêutica de ver O que vive dentro expresso
Sentimento avoado que passarinha no ar Passarinha na água e na terra Passarinha no sentimento Esse ser passarinhento Sentido travestido de asas Que pesa menos que penas Vai mais longe que pernas Passeia mais que o tempo
Passarinha meu sentimento E experimenta bailar no ar Se há brisa e o cenário é bonito O presente é o melhor momento Pra como num voo amar Para se houver dor, soltar o grito Para refazer a realidade Reconstruir o escrito E num instante provar Que sou filha do infinito