ANA VITÓRIA

Ana Vitória

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Nome: Ana Vitória 

Biografia:

Me chamo Ana Vitória Andrade de Matos, tenho 18 anos e nasci em Fortaleza. Sou feminista, leitora e amante das artes. Meu interesse por leitura e escrita surgiu quando eu ainda era criança, aos 6 anos. Aos 9, comecei a mostrar os poemas que escrevia e passei a ser premiada em concursos de poesia da escola onde estudei na minha infância. Nos meus 12 anos, já considerava a escrita como algo essencial em meus dias, levando esse exercício como algo leve e sério, um bonito paradoxo. Nessa mesma época, escrevi dois livretos de contos intitulados ‘’Pop e Eu’’ e ‘’ABC do Amor’’, editados e publicados pela escola onde estudava. Atualmente, público meus escritos no IG @divina.poetica.humana e no Blog Deleite em Linhas. Participo, também, de Saraus e clubes de leitura espalhados em Fortaleza. Com um livro pronto e outro quase finalizado, espero ansiosamente para lançar-me ao mundo.

Poesias

Fiquemos vivas

Conta-me tua história Teus medos e anseios Fala das tuas inseguranças e aflições

Chega mais perto e encosta tua cabeça em meu ombro Não há problema se pesar Quero que seu coração fique leve

Usa a força das suas ancestrais para resgatar o que tiraram de ti Continue presente para lutar ao meu lado Quando você tropeçar, eu te ajudo a levantar

Lembre-se que você chegou até aqui apesar de o medo nos acompanhar todos os dias

Lembre-se que ser mulher e continuar viva, já é uma vitória

Ao sair de casa, o medo de fazer parte das 13 mulheres que são vítimas de feminicídio todos os dias no Brasil

Nas ruas, os ouvidos doem com os comentários sujos e cruéis As pernas tremem e o suor já não é mais provocado pelo calor da cidade O não, não foi respeitado e você teve dedos apertando com força os teus braços e machucando tua parte de dentro Ao terminar um relacionamento o medo de ser a próxima em um caixão

Mas estou aqui Estamos aqui E minha voz grita por todas nós Minha voz grita por Marielle, por aquela que abortou e quase morreu, por aquela que quis ter filho e foi abandonada, aquela que sangrou em mãos impiedosas

Minha voz está presente por minha irmã Débora estuprada aos 15 com uma arma na cabeça

Por Júlia a prima que foi vítima de feminicídio aos 17

Por mamãe, que quando criança, correu aos prantos de um homem mal encarado Por Dandara, por aquela tia preta que perdeu o filho no meio do tiroteio pelas 13 que se juntarão às Deusas hoje Por mim, por você, por todas nós que sofremos todos os dias nesse solo misógino

Minha voz grita pelo gozo, pelo nosso direito de sentir prazer

Grita para que ana e maria possam andar de mãos dadas sem medo de voltarem com marcas para casa Grita contra o inominável que odeia as mulheres e que brinca de governar o Brasil Nós queremos espaço, queremos mais literatura feminina Queremos línguas soltas, cabelos ao vento e peitos livres

Nossa estrada é dolorosa e nossas chances são reduzidas Carregamos, em um braço, o filho não assumido E no outro, o sustento para a vida e para a alma

Nos querem mortas Suamos para permanecermos vivas

Ardenviência

Tudo em mim arde Guardo em minhas células Os cheiros que já experimentei

Está tudo armazenado na imensidão do meu e

Acumulo encalços que passam em minha vida e esqueço de limpar o pó

Tudo em mim arde me doo e permito doer

Caço emoções que me façam pular nua nas águas frias de uma praia adormecida

Minha alma urge para passear no ranger de outros corpos

Tudo em mim arde porque espero pelo toque apenas depois de conversar sobre o que me toca

Porque minha fala treme ao aproximar-se de um espírito livre

Porque embriago-me com a quentura alucinada de uma língua solta

Ardo nos bares boêmios segurando o vinho que te molha enquanto pecamos nas ruas isoladas

Tudo em mim arde por isso há feridas por dentro

Águas de nós

Enquanto ouço teus sussurros tentadores

Percorro lentamente minha saliva audaz em teu corpo enxuto

Tua feição, inerte estaciona em uma dimensão desconhecida entre os outros seres existentes

Súbito sinto a falta de ar e na ponta de um instante devolvo-te à vida

Ao renascer nossas bocas estão coladas uma na outra

E o rio que causei em teu corpo acaba por transbordar os gozos que tivemos enquanto apagamos na vastidão de todos os delírios

Motivos 

 

Porque eu tenho essa necessidade de expelir

Porque me acalenta ter a poesia como um gatilho

Porque eu posso atingir corações com livros ao invés de armas

Porque carrego comigo o desejo de viver e fazer com que haja vida em um mundo adormecido

Porque a caneta será meu refúgio e os papéis meus maiores confidentes

Porque melancolia é inerente a mim e expulsá-la é ignorar a grandeza da minha resistência

Morada em mim

Sou a casa que procuro quando quero abrigo

Sou do tamanho do que almejo e tenho imensidões de desejo

Sou o remédio das minhas feridas e cuido de minhas cicatrizes

Sou a personagem de um livro antigo e incorporo na melodia de algum jazz

Minha boca é vermelha e meu beijo tem gosto de vinho

Meus pés lutam contra o sistema para que eles continuem firmes e presentes

E minhas mãos estão sempre abertas para amparar o oprimido

Em meus braços cabem vários corpos e meus olhos estão sempre alerta eles brilham e às vezes transformam-se em cachoeira

O meu suor advém de muita luta e prazer

O meu olfato suga com vigor os cheiros que desejo e preciso

Sou minha

E convoco as deusas

Tenho curiosidade em conhecer mas aprendi a pôr em prática o adeus

Sou forte e minhas mãos comprovam tal fato quanto te seguro em minha cama

Eu ilumino a mim e aos outros

Sou a minha própria salvação e jamais estarei em mãos sujas de sangue e opressão