AYLA ANDRADE

Ayla Patrícia

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- AYLA PATRÍCIA

Nome: Ayla Andrade 

Biografia:

Ayla Andrade é assistente social e escritora. Lançou em 2013 o livro de contos inéditos “O mais feliz dos silêncios”, pela editora Substânsia. Participa também de antologias como Encontos e desencontos”, MassaNova (2007), “O cravo roxo do diabo – O conto fantástico no Ceará” (2011), “O olho de Lilith – Antologia erótica de poetas cearenses” (2019), além de revistas como Pindaíba, Revista Coletiva, Caos Portátil e em blogs de Literatura como “Blog de Leituras da Bel”. Mais em: https://aylaandrade.journoportfolio.com/

Poesias

DERIVA

se não importa a madrugada corrida
os dias temperados
as noites mornas
é porque ontem sobramos tontos
se me quedo assim
na cama de outro
molhada de outros tantos
a eles pertenço
se me quedo assim
fugida de outros tempos
a contemplar o que de nós virá
é porque sem direção
fico à deriva
mas aprendi com você que à deriva
mesmo à deriva
se chega a algum lugar

AGORA VISTO SEU PIJAMA E SUA PELE HABITA EM MIM

Agora visto seu pijama e sua pele habita em mim e
me arrasto entre as horas como se relógios fossem obsoletos
Meus dias não se guiam em horas, mas no uso que da casa faço
Como no banheiro, durmo na sala, escrevo na cozinha
mantenho as compras no jardim e banho-me no corredor
subverto com precisão a ordem do lar
As horas não me dizem se é noite ou dia:
eu anoiteço por mim mesma quando cerro os olhos
eu amanheço por mim mesma quando dói
Desmaio por tardes inteiras, remontando histórias mal contadas
fazendo delas um fiado meu, com meu fôlego de peixe:
prendo a respiração e o mar me abraça
fundo, abissal quase como aquele beijo embaixo da chuva
Repito minhas preces incessante vezes para que as divindades
não se confundam como eu me confundi
para que as palavras, fixas no céu do quarto, caiam diante de ti
quando da sua presença em minha cama
estrelas-palavras-meninas-imberbes para o desfrute desse gosto que é seu
Visto seu pijama e sua pele habita em mim
e me assombro com a pergunta:
O que, quando nos momentos de silêncio
o que, quando deitado no travesseiro, no escuro da noite a dentro
o que, quando no suspiro último antes do sonho
é enleio, é idílio e sou eu na sua memória
o que, quando a sua carne reflete o que tem dentro da ostra
o que é real e se conhece pelo cheiro
Porque suas mãos suam, seus olhos vidrificam
e sei que de lá não sai palavra que me explique

resposta que me seja dada
para o que meu coração quer saber
E meu coração é cavalo torto
que de rédeas não tem conhecimento
Meu coração é cavalo torto
que não aprendeu a dividir
Mas ainda assim
Vem porque mesmo o cavalo mais torto
busca direção para não caber no precipício
Vem porque mesmo o cavalo mais torto
sabe que para tanto precisa de montaria
Vem porque há tempos descobri que
cavalgo melhor com teu enlace e dureza
Vem porque mesmo o cavalo mais torto
é capaz de ter no peito um coração de criança.

CRIVO

Algumas cicatrizes servem para nos lembrar do que não repetir. Outras
nos dão vontade de sangrar novamente.

SEM TÍTULO

Às vezes escrevo e vomito
ao mesmo tempo
quando termino
limpo a boca
ainda escorre um tanto:
palavra líquido ontem
ainda escorre do canto:
troço bílis poema

AGORA QUE ME ENFEITAM OS GIRASSÓIS

 

agora me visto de morta
agora que a casa é penumbra
agora caminho lento
observando os pés e o andar
antes tinha pressa

antes tinha fome
antes tinha
as manhãs cheirando teu cheiro
as tardes cheirando à elas
as noites cheirando à álcool
os dias foram tantos
parei de contar o que era dia e era noite
parei de dizer o que em mim canta teus olhos
parei de sentir o que no peito engasga de feliz
parei de cuidar do que em mim é jardim
e floresce girassol
parei de correr com o relógio
parei de correr com o carro
parei de correr com as palavras
parei de correr com os meses, ainda
agora me visto de morta
agora que a casa é penumbra
agora que me enfeitam os girassóis