BENIMAR DE OLIVEIRA

Benimar de Oliveira

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- BENIMAR

Nome: Benimar de Oliveira 

Biografia:

Sou Benimar de Oliveira Barbosa, nasci aos vinte e sete de dezembro de 1963, em Fortaleza/CE. Na escola onde cursei o Ensino Médio, criei um grupo de arte (CULTURARTE) para que os estudantes pudessem publicar os seus desenhos, as suas poesias, as suas danças e os seus teatros. Na minha primeria graduação (Ciências da Religião/Seminário da Prainha) como também na segunda (Filosofia/UECE), em ambas as instituções, procurei promover eventos de produção artistica entre os estudantes. Há mais de vinte anos faço parte do coletivo “Entre Aspas”, que divulga a arte da Collage. Participo também de saraus que acontecem pela cidade, procurando expandir a importância da palavra. Sou professor e estimulo os meus alun@s a lerem e produzirem textos poéticos. Também sou militante da Pastoral do Menor e do MEB.

Poesias

TITO, O PÁSSARO DA LIBERDADE

 

Os pés descalços

sobre as ruas nuas

eram as tuas  manias de infância.

 

Banhava-te nas águas da Assunção

sem dar-te conta do teu destino.

 

O Evangelho entrou na tua vida

como uma navalha cortante.

 

Deixaste os muros da igreja

para lançar-te às ruas

em busca da liberdade.

 

Tu conheceste precocemente,

as catacumbas da ditadura.

 

O pau de arara,

o eletro choque

e as pancadarias sobre o teu corpo

foram teus inimigos mais próximos.

 

O teu silêncio,

arma poderosa diante dos teus algozes.

 

O teu compromisso  com a liberdade

fez-te sangrar,

odiar e amar.

 

Nem os ares de outros mundos

amenizaram as dores da tortura.

 

Os capangas da ditadura

já haviam se deitado

sobre a tua alma.

 

O último vento de setembro,

que tocou-te a face,

trouxe consigo a vida que havias perdido.

 

A morte foi o ápice da tua liberdade.

 

És agora uma sarça ardente

que nos move rumo à liberdade.

 

PALAVRAS

 

Gosto de palavras,

principalmente daquelas que corroem por dentro.

 

Mas gosto também,

das palavras que amenizam as dores.

 

As palavras que não me dizem nada

defeco-as uma a uma.

 

Na hora da dor,

as palavra juntam-se

e afagam o coração em frases.

 

Gosto das palavras,

pois elas fazem pontes.

 

Podem ser silenciosas,

mas precisam avançar corpo a dentro.

 

Palavras são chaves potentes.

 

As palavras podem marcar,

podem matar,

podem fazer sorrir e, até

mesmo, ressuscitar.

 

Os profetas usam palavras.

 

Os mentirosos abusam das palavras.

 

Os amantes se traem com as  próprias palavras.

 

Palavras são estruturas

que nascem do desejo de expressar-se

e morrem nas calçadas.

IDENTIDADE NEGRA

 

Eu sou negro.

Tu és negra.

Ele é negro.

Somos todos negros e negras.

 

Vimos da mesma história:

somos da senzala,

do canavial,

dos navios negreiros,

dos quilombos…

 

Porém, é melhor que se esclareça:

não somos escravos,

fomos escravizados.

 

Meu sangue é negro,

meu cabelo é pixaim.

E o teu, é liso?

 

Não nego a minha pele escura.

 

Não fujo dos tambores,

nem dos terreiros,

pois venho de lá.

 

Ainda tenho que quebrar correntes

todos os dias:

nas fábricas,

nas ruas,

na escola…

 

Sou negro, sim!

E o que é que tem?

 

Sou da mesma linhagem

de Zumbi dos Palmares e Chica da Silva.

 

Minha cara é negra.

Meu peito é negro.

Meu pé é negro.

 

A minha identidade é negra!

AMOR-CARNE

 

Nessa hora vivida

não me importa se tens alma.

Só quero a tua carne,

teu cheiro.

Tua alma pode perder-se no espaço,

adormecer entre sonhos

e só voltar quando estiveres

livre de mim.

FOME

 

O menino chorou

A mãe também.

 

O menino suspirou,

O pai também.

 

O menino calou,

A fome também.