CUPERTINO FREITAS

CUPERTINO FREITAS

Cupertino Freitas - foto perfil

Nome: Cupertino Freitas 

Biografia:

Escritor e consultor de TI, especialista em Roteiros Cinematográficos e mestre em Relações Internacionais. Coordena o curso de Especialização em Escrita Literária do Centro Universitário Farias Brito. Membro do coletivo de escritores Delirantes. Tem contos publicados nas coletâneas Limiar – Delírios Cruzados, A Arte do Terror – Apocalipse, A Face do Medo, Quase Nome, Ecos de Natal e Farol. Primeiro lugar no III Concurso Cuéntame un cuento, da Universidade de Salamanca (2019); premiado no concurso Repertório de Utopias do Itaú Cultural (2019) e, como coautor, no concurso de 200 anos de Independência do Ministério da Cultura (2018); segundo lugar nacional no VI Prêmio Campos do Jordão de Literatura – Poesia (2018), com o poema Cracolândia. Seu primeiro romance, Judas no Paiol, foi publicado em 2018.

Poesias

Cracolândia

 

Com desejos inconfessos,

pelas madrugadas,

tontas e mal-amadas,

vagam pelo espaço,

em busca de fumar e esquecer.

Santas criaturas na devassidão dos porcos,

mentes em torpor,

com suas faces cruas,

penam pelas ruas.

Corpos em corações dormidos,

almas em separação,

com vigor se devoram,

com a dor, se apavoram,

e ninguém se entende mais.

Crianças perdidas,

que será de suas vidas?

Enquanto não vem a resposta,

um outro já chega,

uma outra vida fora;

chegou mais um infeliz.

Um não agosto

 

Não quero agosto como tempo aflito,

não quero agosto como despautério,

não quero agosto como mês tragédia,

com florestas queimadas e falta de chuva.

Quero um agosto setembro, todo florido,

um agosto dezembro, de reencontros,

ou um animado agosto junho,

com músicas de São João.

Quero um agosto janeiro, com recomeços,

um agosto julho, com crianças de férias,

ou um agosto fevereiro, com samba-exaltação.

Quero um agosto março, com pancadas de chuva,

Quero as colheitas e vazantes de um agosto abril,

ou um agosto charmoso, bem maio ou outubro,

ou ainda um agosto novembro, uma conclusão.

Quero tudo, menos desgosto,

quero a paz de um não agosto.

Corredeiras

 

Sem destino, numa canoa sem remo,

desço as águas turvas e desafiadoras

de um rio caudaloso, sem eira, nem beira,

e sem saber onde e quando paro.

Não sei como termina a história,

sigo só, sem trajeto e sem controle,

e com medo de naufragar.

Quisera ter um momento de águas calmas

a me permitir um sono,

mas não há momentos de descanso.

À minha frente, só vejo corredeiras.

 

 

Aos que estavam aqui

 

Eram jovens cheios de sonhos,

queriam apenas amar de seu jeito,

queriam, tão somente, viver.

Aqui não estão mais,

nem seus sonhos,

nem seus amores,

nem suas vidas.

Tombaram sem o aconchego dos lares,

sem a solidariedade dos cidadãos de bem,

sem as bênçãos dos fiéis,

sem bálsamo nem analgésico,

sem a empatia dos vizinhos

e dos colegas de trabalho.

Estavam aqui,

mas se foram, há anos,

envergonhados, julgados,

com chagas abertas, feridas na alma

e a dor de serem escarrados do mundo

sem o menor pudor.

A Rômulo, Mário, Fernando, Marcelo,

ao rapaz que ficava dias deitado no sofá

esperando alguém chegar,

ao irmão de uma amiga carola

que foi isolado da família por estar doente.

A esses e a tantos outros invisíveis

que morreram esquecidos,

que sofreram o pão que o diabo amassou

e morreram à míngua, sem ninguém,

dedico esse poema.

Com carinho.

Da dor de todo dia

 

Choroso, com dor de coração partido,

o moço de rosto triste ignora

que seu problema é diminuto,

quase nada, ante o terror lá fora.

Um tufão de emoções lhe assola a alma,

a paz se vai, desesperança aflora,

e carregando o peso do mundo,

se fecha qual caramujo, agora.

Se cria forças, desafia a sina

e decide que chegou a hora

de retomar o passo interrompido,

arranja, enfim, um meio de ir embora.

 

Seu dilema é que está paralisado,

não vive mais aqui, nem lá mora,

sua vida se acomodou num mundo

que por um encanto implora.

 

Desejo que esse moço triste

elimine o mal que o apavora

e a dor de não ter consigo

alguém que tanto adora.

E que não queira para sempre

fazer da nostalgia, senhora

pois a vida é sopro breve,

tempo que se devora.