HELDER FELIX

Helder Felix

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Nome: Helder Felix

Biografia:

O autor nasceu em Fortaleza em 1985. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Ceará e se especializou em ensino de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual do Ceará. O autor é professor da rede estadual de ensino do estado do Ceará. Teve textos publicados em revistas eletrônicas, blogs, e em antologias de concursos literários como III Concurso literário Big Time Editora, Antologia Prêmio Vip de Literatura Edição 2016, Antologia Baseado na Estrada – 50 anos do movimento Hippie, Concurso Contemporânea de Literatura 2016, 5º Concurso Literário Pague Menos, IV Festival de Haicai de Petrópolis, Antologia de contos Arte do terror – Cartas, Antologia Arte do terror-História, IX Coletânea sec.XXI- Homenagem ao escritor Alexei Bueno, V prêmio literário Escritor Marcelo de oliveira Souza, Livro diário do Escrito 2018. O autor publicou seu primeiro livro de poesia intitulado Batons, Eucaliptos e Aspirinas pela Drago Editorial em 2017.

Poesias

Vozes mudas das ruas

Almas podres desfocadas.

Ofuscadas pelos carros e pela vida.

Pelo ritmo robótico e frenético da vida.

Largados.

Cão no silêncio da noite,

O papelão,

O pano velho e rasgado

Colchão improvisado.

A cidade, adormecida ainda,

Gemidos de frio e de fome.

Os galos modernos

Despertam os robôs para a vida

Monótona vida finita.

Nas calçadas, nas praças, nos bancos…

Vagam humilhados.

Taciturnos com tantos insultos

Os corpos se expressam ao contrário.

Olvido,

Mendigais pão, respeito e afago.

O vazio nos peitos magros

Grita a pele nua e cansada

Os olhos baixos  e os pés inchados.

Grita!

Imensamente grita!

Vozes silenciadas.

Uns veem, mas não olham.

Outros olham, mas não se importam.

Atribulados, se viram com podem:

Reciclagem, engraxate, olhador de carros..

Pobres almas sem asas.

Esquecidas na rua de gente muda e nariz arrebitado.

Pobres almas sem cascas

Sem casas.

Sem aspas

Sem nádegas.

O mundo é grande

O mundo é grande

Maior que o da minha infância.

Não é toda azul

É bálsamo.

O mundo é grande

É multicolor.

O mundo é maior daquele que o poeta cantou.

É moinho de carne

Brilhante falsário.

O mundo é grande

Maior que aquele da televisão.

Muito maior que a globalização.

É relógio pontual

Cessa desesperado.

O mundo é música

É ritmo

Desatino

O mundo é maior que a carne

[finita

É pretérito.

O mundo não cabe no peito

Não é globo de plástico.

O mundo é vasto tanto quanto um poema inacabado.

O mundo é pausa que não para.

É grande.

Não cabe no papiro

Tão pouco no coração.

Poema da manhã

Nesta manhã fria de domingo

Ponho-me à máquina o claustro diário.

Minha mãe na cozinha faz o café

Café preto café bom que poeta cantou.

Na varanda, os cachorros brincam com os ursos de plásticos.

Ao fundo, o som profundo de muitos dias.

Um gato desfila solenemente entre os muros do quintal de casa.

O cheiro bom de cozido exala sentidos da infância.

E, neste alinhamento lírico e poroso,

Penso em versos que exprimo.

Humildemente exprimo nessa manhã fria de domingo.

Nos jornais de amanhã

 De repente,

Um tiro atiro.

Nos jornais de amanhã

Que previ ontem

Vejo hoje

Meu sangue nos olhos de vômitos

De Antônios.

Sem vida,

Meu frágil corpo

Descompassado no chão de um fétido banheiro

Mera ocasião formal de uma matéria dada

Clama em silêncio

Pelo aleijo etéreo.

Os primeiros flashes não me atordoam.

A mediocridade dos que ficam sim.

De longe, já incorpórea.

Vejo fitas bicolores que me separam dos outros

Como me dissessem baixinho:

“ Psiu! Vai embora, já não te pertences mais”

Nas casas sem lares

Alumiam-se diante do fato já gasto.

Metamorfoseiam-me e confabulam.

Sou

Mera ocasião banal do apetite dos outros.

Mera ocasião banal do prazer solúvel dos outros.

Estonteante em outro plano

Rio

Da carnificina das pessoas.

Que fingem um penar com um choro falso abafado.

Assim, sentem-se mais humanas.

Assim, sentem-se mais solidárias.

Assim, sentem-se mais imaculadas.

Nobres criaturas vis.

Agradeço-lhes

Todos os lamentos exaltados

Todas as velas solitárias

Todas as homenagens doençarias.

Sou

Mera ocasião de se acharem vivos.

Mera ocasião de se fazerem momentaneamente ternos.

De repente,

Estranhos homens de pele oleosa e camisas pretas

Levam a parte corpórea que me resta.

Caibo sem dificuldade na caixa que me trazem.

Meus pares em partes partem pasmados.

Profilaxia de praxe.

Amanhã nos jornais

Urubus venderão minha imagem desfalcada.

Confabularão

Julgarão

E eu

Reduzido a vagos comentários

Novamente rio

Da opinião sensata desses nobres insalubres.

Que não veem a hora de compartilhar

A exposição de uma vida aleijada.