HERMES DE SOUSA

Hermes De Sousa

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Nome: Hermes de Sousa

Biografia:

Hermes de sousa veras é remendo de gente. nasceu em 1991 em Fortaleza, Ceará. habitou a cidade da luz até 2012. foi vice-rei do Grupo Eufonia de Literatura, coletivo literário que se reuniu em muitos lugares, mas antes de se encantar, acontecia no pátio da biblioteca pública municipal Dolor Barreira, entre uma árvore e um poste. formou-se em ciências sociais pela Universidade Estadual do Ceará e, sem anel de bacharel, arribou para Belém do Pará com intuito de cursar mestrado em antropologia pela Universidade Federal do Pará. em 2017 mudou-se novamente, mais ao sul, para continuar os estudos acadêmicos em antropologia. atualmente, desnorteado, não vê a hora de voltar para algum lugar de sol e mar. tem contos publicados na revista Maracajá e no portal LiteraturaBR.

Poesias

sazonal secura

memória é coisa de se rir

na minha mente deveria ser imagem

como um filme antigo recém filmado

em tecnologia technicolor

 

invés disso, somam-se palavras sujas

palavras-mudas, palavras-algas, palavras-ruas

palavras-rugas

imaginando, maquinando e embolorando

minhas lembranças de menino, os anseios do rapaz

não recordo os nomes dos meus escritores cearenses preferidos,

minha rede anda fedorenta e imóvel, resistente a qualquer lavagem.

juntam-se pessoas esquecidas, bandas, quadrinhos, cientistas e ocultistas,

amontoados e esgarçados pelas horas insidiosas.

 

mas a graça disso tudo é ver essas palavras-navalhas se afogarem no Rio Pajeú

em sua sazonal secura.

Chão de fábrica

Tiro da gaveta mofada
um HD externo obsoleto
Depois de todas as adaptações
gambiarras e revoltas técnicas
conecto o trambolho ao notebook
encontro fotos do mar
um gato falecido
meus avós no sofá assistindo ao jornal.
Uma pasta com retratos da formatura do meu irmão faz chover meu rosto
primeiro da família formado em universidade pública
retiro o HD, ergo meu corpo e volto para o chão de fábrica.

Maneira de descobrir brasileiro

Quer distinguir o brasileiro do colonizador?

Toque tambor, pode ser o rum, rumpi e o lê

ou o deitado do tambor de mina; um boca de tronco de carimbó

Agite as cabaças com miçangas, bata triângulo, agogô e afoxés

Assopre fumaça de defumação

Balance as mãos, baie, gire gira

Defume e banhe com as ervas cheirosas

Lave com cachaça os pés

Cante para voduns, orixás, inquices

Ame os encantados

Se o sujeito correr

É um metido a besta

Se o besta voltar com armas

Eis aí o inimigo, tão doente quanto perigoso.

Flechada de caboclos neles!

Tarde, chuva, tacacá

tarde, chuva, tacacá

preguiça se estira

assopra o calor

vento não há

quer dizer

nem sei.

meu estômago alentado

pensa nos famintos de tudo

a fome, o verdadeiro atentado.

a mão coça, o sexo entumece

cérebro, pensamento, alma

calma, eu peço

depois da chuva

 

me des

águo.