ÍRIS CAVALCANTE

Íris Cavalcante

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- ÍRIS CALVACANTE

Nome: Íris Cavalcante 

Biografia:

Íris Cavalcante, nascida em Baturité-CE, Especialista em Escrita Literária e MBA em Administração. Estreou na literatura com a publicação independente Palavras e poesias (Expressão Gráfica, 2003), seguida de O caminho das letras (Expressão Gráfica, 2006), o romance O sobrevivente (Expressão Gráfica, 2010) e Vento do 8º andar (Premius Editora, 2017), finalista do Prêmio Jabuti 2018, na categoria poesias. A autora tem participação nas coletâneas Chuva literária: Uma antologia de autores nordestinos (Scortecci Editora, 2017), Mirabilia contos de Natal (Editora Labrador, 2018) e Todos os tempos do universo (FBUNIi, 2019), nas revistas E Sesc-SP, Philos-RJ, LiteraLivre e fez parte de um projeto de crônicas semanais no segundaopiniao.jor.br. Em agosto/2019, lançou o romance “Por quem se curvam os homens”, na Amazon.

Poesias

Algumas de nós

 

Não queremos ser mártires

nem heroínas nem mortas

nem em cárceres mantidas

de nada, privadas

Dizemos não, mesmo depois do sim

mudamos de opinião

rimos escolhemos comparamos

desistimos de alguns algures alhures

Mas não

não matamos ninguém, senhor doutor

eles é que nos matam a nós

disso temos medo

Sangramos todo mês

outras de nós, não

resistimos até o último fluxo de sangue

porque há resistência

enquanto vida há

Temos prazeres secretos inconfessáveis

aprendemos com os livros

votamos com livros

acompanhados de Clarice

Rosa ou Saramago

não nos juntamos

a qualquer um

exigente essa menina

então respeita essa mulher

Conhecemos a agenda global

o capitalismo dominante

o fascismo emergente

a fome que se arvora e nos devora

e nos come por dentro e por fora

Mil faces temos, inúmeras somos

poetas executivas doutoras

operárias de chão de fábrica

mãe, se mãe quisermos ser

Mulher que clama ama e não ama faz drama

consente ou não, sempre consciente

se não entende, meu bem

desocupa o lugar

porque vamos à luta

Dois corpos só ocupam o mesmo espaço

quando há sentido na dança

dos corpos e dos sentimentos

física aritmética ou poética

então segue o baile

amarras não temos mais

Queremos amar e ser amadas

fazer livros e amor, nunca armas

respeita essa menina

ou esse rapaz, se rapaz for

Queremos mandar na própria sina, irmão

sem medo de dobrar a esquina

heroínas não, plurais

é da paz que somos, da paz!

Filhos do sonho

 

Escuto vozes dos meus ancestrais

cantos e lamentos no chão das senzalas

ou nos porões dos navios

na travessia de um Atlântico sem fim

Sob minha pele branca

trago o sangue negreiro que me faz resistir

sou filha do português com a negra da senzala

reinvento em poema

a história não contada dos meus antepassados

Arranco com minhas próprias mãos

os sonhos que enterraram

acalento esse sonho, alimento esse sonho faminto

como a um menino recém-nascido

para silenciá-lo do choro

É tempo do renascimento

de curar as cicatrizes e recuperar a voz

minha memória me traz a dor do tronco

e o preconceito de todos os dias

A cada manhã

meus irmãos e eu estamos prontos para a luta

o presente a sobreviver e o passado a ser lembrado

para a construção do futuro

Que não tenhamos mais punhos sangrando

pelas correntes do opressor

e que a cor da pele

não seja mais indicativo

de diferenciação entre os homens

Meus ancestrais reconstruíram suas memórias sob a dor

mas quando enterraram os sonhos

confiaram nos filhos dos sonhos

por eles, nossas razões para resistir.

Essa gente

Que gente é essa

inadequada e sem medo

que chega às universidades

defende teses de doutorado

escreve livros

Quem são esses pobres pretos pardos

retirantes subversivos politizados

com bandeiras multicoloridas

em cores de arco-íris

amarelo rosa ou grená

Ora, mas o quê que há?

saíram dos guetos dos morros

dos armários dos confessionários

pois se não há mais pecados a confessar

Que gente é essa de cabelos afro

mulheres e homens pretos como um breu

bravios progressistas

bramindo palavras de ordem ou desordem

desconstruindo gêneros

poluindo o planeta com poemas

mas que blasfêmia, Nosso Senhor!

Injúria calúnia

difamação às elites brancas

seculares almofadadas

com seus rabos postos

em tronos de insensatez

Ora, mas que gente é essa, pobre gente

antes tão servil

agora quer direitos

que apenas a uma classe convém

Distribuição de renda, faça-me o favor

volte à base da pirâmide

olhe como fala, hoje eu sou doutor

mas sua mãe é analfabeta

ela lê o mundo melhor que o senhor!

Essa gente já foi marginal

invisível e sem nome

hoje faz da margem

a fronteira de um despertar

subverte a ordem imposta, a subalternidade

a reposta pronta que lhes ensinaram a dar

Essa gente que acorda cedo

faz o próprio tempo porque o tempo urge

não há mais tempo a perder

rompe as muralhas dantes a cada amanhecer

nas fábricas universidades

mercados catedrais

Cuidado com essa gente, sistema perverso

estado parlamento o tempo todo e a todo tempo

Sou desse tipo de gente

feito prosa e verso

gente que é mesmo gente, sem mais!