REBECA MARIA

Rebeca Maria

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- REBECA MARIA

Nome: Rebeca Maria

Biografia:

Beca nasceu no Rio em agosto de 1992, cresceu em Fortaleza, na companhia dos avós. Otaku, Gamer, Artista Digital e Geógrafa (sem senso de direção). Adora ler, desenhar, escrever e tem um fraco por cães, gatos e chá gelado. Tem medo de dirigir, de gente que acha que está sempre certa e a única coisa que consegue odiar de verdade é fígado. Participou da coletânea Paginário (Aliás Editora, 2019) e foi responsável pela diagramação, ilustração e concepção visual em Manifesto Balbúrdia Poética: 80 tiros (2019, CJA Editora). Atualmente trabalha com edição de vídeo do projeto Literatura & LIBRAS e, enquanto seus gatos dormem, escreve para as revistas do Medium Ensaio sobre a Loucura e Fale com elas sob o Pseudônimo de Jaded.

Poesias

Maçã Podre

Vovô e papai serviram ao país
E eu sou uma maçã podre
vovó dizia que não havia
Época melhor que a da ditadura
“As coisas eram baratas” ela dizia
“Eu fazia a feira todo mês e ainda
Dava para as vizinhas”
“As ruas eram calmas, a gente dormia
De porta aberta”
Vovô dizia que algumas pessoas
Que entravam no quartel sumiam
E mais nada.
Vovô morreu e levou os fantasmas
Para o túmulo
Não ouvi mais nada de papai
Me tornei surda
Quando ele concordou com o homem
Que chamou a filha de fraquejada
A raiva de mamãe cresceu
Junto com o pesar
Mamãe era essa coisa, a ovelha negra
Apesar de papai servir ao país
E eu sou isso, nada mais
Sou maçã podre
Em uma arvore que não deveria
Ter dado frutos

(Des) Caminho


Nas paredes do meu coração
a perda ecoou novamente
como um grito sem palavras,
como um tambor, incessante e crescente
prolongando-se indefinidamente.

Não era a minha perda,
mas a dor ecoou mesmo assim
e então deixou um vazio
-ali, onde alguém costumava estar —
e ecoou e ecoou e ecoou
não adiantava tampar os ouvidos
-nunca adiantou —
a dor é onipresente e atemporal,
a falta, esmagadora
nada sobrou de mim
a dor devastou tudo,
mais uma vez a perda veio e ficou,
mesmo que não fosse minha,
ela veio e ficou e me lembrou
da ausência sempre presente
do vazio onde alguém costumava estar.

Memento Mori (*)

Do seu amor só me resta a lembrança
Guardada no peito, acorrentada em meus tornozelos,
Arrastada ao longo do caminho,
Carrego-a em meus ombros.
A lembrança me curva, me culpa, me arrasta, me arrasa
A lembrança me atrasa, me arranca,
me joga no chão e me faz rastejar
A lembrança é tesouro, é fardo
É mórbido, é sagrado
A lembrança é tudo que resta,
É tudo que tenho
É o que trago — pesado — no peito
É o que levo e arrasto
É o que é, é o que não deve ser
é a luz da memória ofuscada na perda
é o desejo de trazer de volta
o que, aos poucos, se torna poeira

(*) Memento Mori: latim, “lembra-te que és mortal” ou “lembra-te da morte”.

Dia de Chuva

Está chovendo muito
desabando o mundo!
Se desfazendo em água
e eu aqui, acordada!
Quisera eu estar dormindo
igual minha gata