RICARDO KELMER

Ricardo Kelmer

foto Ricardo Kelmer

Nome: Ricardo Kelmer

Biografia:

RICARDO KELMER – Nasceu em Fortaleza, em 1964. É escritor, roteirista e letrista musical. É autor, entre outros livros, de Pensão das Crônicas Dadivosas (crônicas), O Irresistível Charme da Insanidade (romance) e Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos). Organiza eventos de inserção da literatura na agenda de entretenimento da cidade, como o Anoitecer de Autógrafos e o Bordel Poesia. De 2012 a 2016 apresentou-se, com o parceiro Felipe Breier, em várias cidades brasileiras e em Portugal com o espetáculo Vinicius Show de Moraes, de sua autoria. Organizou em 2016 o livro Para Belchior com Amor, reunindo catorze autores cearenses que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em canções de Belchior. É um dos diretores do bloco carnavalesco Simpatizo Fácil. Site pessoal: blogdokelmer.com

 

 

Poesias

O TEMPO DO HORROR

 

Vestidos de patriotismo

Seguindo seu deus vingativo

Eles rastejam dos escuros porões

Onde escondiam os ódios e preconceitos

E nos atacam

Por pensarmos diferente

 

Atiçados pelo odor de morte

Que a boca de seu messias exala

Eles hasteiam suásticas

E armam as crianças

E nos torturam, e nos executam

Em nome da família brasileira

 

Eu queria que fosse um pesadelo

Mas é real…

 

Ouçam as salvas de canhões:

O horror é um tempo que se anuncia

Sem flores nem poesia

Banhado em nosso sangue

No horizonte do Brasil

QUANDOS

 

Hoje me dei por mim ontem

Um velho quando de mim que eu já não lembrava

Quando o eu que hoje sou ainda não era

E quem eu era não se via a si

Como o eu de hoje bem o vê

 

Aquele que eu era, nobre e sonhador

Tão juvenil de inocências

Em que vis quandos se perdera?

Que fiz eu dele para que hoje não seja?

Terei-o assustado com medonhos vislumbres

Desse outro em que me tornei?

 

Portais do tempo, abram-se por um segundo

Que saltarei até o quando em que fui aquele eu

E lá, com ternura me abraçarei

E me farei olhar bem para mim

Para guardar a quem eu ainda era

Para que hoje, ao espelho

Eu possa jamais esquecer

No resignado eu que me olha

Esse quando que um dia eu fui tão mais eu de ser

O GOZO DA LÍNGUA

 

Pela maciez sonora dos fonemas

De formas acetinadas

Que a língua deslize

 

As arestas silábicas

Que a pronúncia obstaculizam

A língua sensibilize

 

E no subentende-se das reticências

Onde a linguagem se insinua

Que a língua dance nua

 

E mexa-se, revire-se, contorça-se

Lambendo-se ao prazer do ritmo

E no sabor do som deleitoso

Salive de gozo em êxtase linguístico

 

Ao silenciar dos versos que findam

Que descanse a língua de sua lida

E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida

Desmilinguida

ELA NO ESPELHO

 

No espelho ela se olha

De um outro tempo ela se vê

E no reflexo a que se olha

Não é quem pensa ser

 

Ela vê que ainda é

Aquela que um dia não se foi

Uma não se reconhece

A outra espera no depois

 

Elas se olham e se escondem

E se perguntam outra vez

Mas o espelho não responde

Ao olhar dos seus porquês

 

Quem é a aquela que se olha?

Quem olha a outra e não se vê?

E o seu olhar só lhe devolve

O mistério de crescer