SÉRGIO BARBOSA

Sérgio Barbosa

POESIA_DE_FORTALEZA-POETA- SERGIO BARBOSA

Nome: Sergio Barbosa 

Biografia:

Sérgio Barbosa Alves nasceu no Rio de Janeiro/RJ (1970), mas reside em Fortaleza há quarenta anos. Casado, três filhos. Professor efetivo de matemática na Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC/CE). Bacharel em Ciências Contábeis, licenciado em Matemática e especialista em Coordenação Pedagógica. Premiações: Editora Vivara – Concurso Nacional Novos Poetas, (2016); Prêmio Ideal Clube de Literatura – XVIII Prêmio Barros Pinho (2016) e XX Prêmio José Telles (2018), este último conquistando o 1o lugar. Tem, como precursores artísticos, os escritores Carlos Drummond de Andrade e Pablo Neruda. Adota como seu pseudônimo a alcunha de Tolluca.

Poesias

ALMA EM BRANCO

 

Nenhuma poesia
Calmo desespero reunido na crisálida Sangue azul reprimido na esferográfica
Rumores de asas e ritmos e sonhos Atados em plumas e letras e cores
Montanhas e estrelas vazias de olhos Elogios mortos na adolescência e medo
Nenhuma poesia
Quem dera um poema surpreendesse agora Essa plateia muda dos meus dedos longos
Um soneto que caminhasse um palmo de papel Cobrindo a distância que vai do chão à rosa
Ou uma súbita fortuna de saudades fêmeas Enchesse de ouros-versos minhas mãos mendigas
Nenhuma poesia
Sujeito-me até as confidências piegas dos diários Às cartas de amor perfumadas de libido
Aos favores das cortesãs de rimas fáceis Que povoem esse salão branco de substantivos
Ai, quem me dera agora um beijo de amor escrito Sem pretensões de namoro, matrimônio ou livro

AMPULHETA

Às prostitutas
Fêmea do Tempo vil Onde ele se chafurda Enquanto grão
Cintura de cálice servil Que o Tempo estrangula Submissão
Objeto de desejo Vulcões almejados Tempo de paixão
Seios de vidros fartos Narcisos transparentes Tempo de solidão
E não possuis pés Que fêmeas não caminham Não sonham em vão
Apenas se deleitam Sobre o vaidoso Tempo Da ilusão
Por fim A gravidade termina O Tempo foge
Último grão

FÓSSIL DE JANELA ABERTA (Fotografia da Praia do Meireles, 1950)

Vejo Um navio de ferro Um frágil mar incolor Já quase sem o cinza que foge Qual perfume ordinário Dos marinheiros repetidos Na praia da estação
Sinto Os castelos de areia As donzelas da vez Ambos esperam a grande onda Que vai durar uma vida inteira Até caírem por terra As torres e as honras
Ouço As vozes ilegíveis Os transeuntes de papel Não sobreviverão aos anos Nem o rebanho de nuvens Que de alvíssimas ovelhas São amarelos fungos
Calculo O caminho percorrido Por essa fotografia (fóssil de janela aberta) O que moveu tal criatura A fugir de tantas molduras Para só dizer que ela veio O navio de ferro, não

MATRIMÔNIO

Essa dama possui o mesmo nome Da esposa que um dia eu amei
Apesar do véu negro e espesso Lembram muito os lábios que um dia beijei
E não obstante as luvas insensíveis Recordam-me as mãos que um dia toquei
Os olhos lacrimejantes dessa senhora São o retrato vivo daquele olhar que um dia fitei
Nosso matrimônio durou um longo dia Mas quando veio a noite fria, ela faleceu
Então, a casa vazia, a rua sem número A vida privada sem diálogo, sem conflito
Eu, desnecessário, resolvi também morrer Uma morte óbvia, sem choro, sem litígio
Realmente essa madona de feições graves Parece-me a mademoiselle que um dia casei
Mas, estranho… O que faz essa mulher de luto no meu funeral?

O PARQUE DO FIM DA VIDA

 

Aqui termina a montanha. E toda a altura. E toda a surpresa e números
Agora é a vez da ladeira. De toda a pressa. De toda a tristeza e gotas
Tudo que é construção vai se moldando em restos Todo o fantástico se vulgariza e peca
O livro que eu não escrevi. A mulher que eu não amei. Todos ali guardados no futuro do pretérito dos sonhos
Mas me divirto vendo meus filhos, netos, bisnetos Um formigueiro de almas levando folhas pro novo mundo
Chego, afinal, a minha última convicção – A vida é uma promessa, que jamais se cumpre
Primeiro vão-se os beijos, depois o cio e enfim as mãos Daí se enterra o olhar sob as palavras mudas da companheira
Súbito!… pulo do carrossel Desço do horizonte com a sensação que foi pouco
E com a boca suja de sol, me revolto Solto-me das mãos da morte e corro pra vida, que grita:
– Na Roda Gigante Não entram maiores de noventa